Por que surgiram os shopping centers?

Como reconhecer os falsos amigos da cidade? Podemos conhecê-los por uma característica que eles têm em comum: eles são os dehumanizadores da cidade. Seus interesses, seu amor, sua indústria e suas ações são empregados, em primeiro lugar, para servir não aos seres humanos, mas ao bem-estar das máquinas (reais ou políticas), para vantagens políticas ou econômicas; seus bens são o automóvel, o poder e o dinheiro. (GRUEN, 1964a, p. 98).

Isso poderia ter sido dito por algum dos “caranguejos” que estão militando contra a “revitalização” do Cais Mauá. Mas não, foi dito pelo inventor do shopping center.

Isso mesmo! Centros gruende compras já existiam há muito tempo, mas os primeiros shoppings próximos do formato que a gente conhece hoje surgiram no início dos anos 50 e foram projetados pelo Victor Gruen, um arquiteto e urbanista austríaco. Gruen foi para os Estados Unidos em 1938, depois da ocupação nazista na Áustria, e logo se destacou como arquiteto de lojas. Como urbanista, ele se mostrava preocupado com o aumento no número de carros nas cidades americanas e com os problemas de mobilidade que isso trazia:

Em todo o mundo estamos ficando sem espaço em nossas áreas urbanas; elas têm se congestionado não apenas com o rápido crescimento da humanidade, mas também com o crescimento do exército de escravos mecanizados sob a forma de máquinas dos mais diversos tipos, entre as quais a mais visível é o automóvel. […] Paradoxalmente, também, apesar de inventados e construídos como um meio de mobilidade, eles terminaram por cercear aquela verdadeira mobilidade nos centros das cidades e em áreas circunvizinhas, congestionando ruas e rodovias. Os moradores das cidades reagiram de duas maneiras contra esse regime de terror: fugindo para os subúrbios distantes, provocando assim a dispersão das nossas cidades; ou buscando acomodar-se às exigências do ditador mecânico, facilitando suas condições de existência, alargando ruas, demolindo habitações e com isso estruturas operantes, destruindo parques, monumentos, desmembrando as comunidades, concedendo aos seres mecânicos, sob a forma de áreas para depósitos de carros, parquímetros e garagens, bombas de gasolina e oficinas, postos revendedores, e assim por diante, mais e mais espaço destinado ao homem. […] Chegou no entanto o momento do contra-ataque. (GRUEN, 1964b, p. 116-118).

Naquela época, muita gente estava abandonando as áreas centrais das grandes cidades norte-americanas para morar nos subúrbios de classe média. O comércio, entretanto, continuava concesuburbsntrado no centro, fazendo com que essas pessoas precisassem se deslocar até o centro para fazer compras. Com milhares de carros se deslocando para lá, o centro ficava cada vez mais congestionado e degradado.

Assim que surge a ideia do shopping center, um centro comercial no subúrbio que permitiria que as pessoas façam compras perto de suas casas, diminuindo o uso do carro. Em um artigo publicado em 1952 na revista Progressive Architecture, Victor Gruen e o economista Lawrence Smith propõem a construção dessa novidade. Além de apresentar alguns projetos arquitetônicos de como seriam os novos shoppings, os autores os justificam dizendo que eles diminuiriam o tráfego no centro, e assim

o centro irá novamente ser capaz de servir de forma satisfatória a sua zona de comércio original, funcionando para o tamanho da cidade que foi originalmente construído; e, além disso, vai se tornar mais desejável como o principal centro de atividades sociais e culturais. (GRUEN, 1952, p. 68).

Ou seja, os shopping centers foram inventados para diminuir o uso de carros e permitir que as regiões centrais das grandes cidades voltassem a se destacar por atividades sociais e culturais. Será que alguém podia avisar isso ao nosso prefeito?

Porto Alegre decidiu fazer tudo ao contrário e, para revitalizar o centro, decidiu cortar árvores, derrubar construções históricas e construir um shopping! Na beira do Guaíba! Com mais duas torres comerciais! E com muitas vagas de estacionamento, para garantir que ainda mais carros entupam as ruas da cidade. Falando em estacionamento, nos EUA algumas cidades já estão criando leis para impedir que grandes empreendimentos tenham muitas vagas de estacionamento, mas aqui a orientação do poder público continua sendo a contrária.

E não é só o estacionamento, muitas cidades europeias estão limitando o acesso dos carros ao centro. É o caso, entre outras, de Dublin, Madrid e Paris. O próprio Fortunati disse ano passado que “a solução é Copenhaguizar”, em referência à capital dinamarquesa, que incentiva o uso de bicicletas e limita o acesso de carros ao centro desde 1962. Pena que a hipocrisia do nosso prefeito resulte em políticas completamente contrárias a essas que ele fingiu defender.

Referências:

GRUEN, Victor; SMITH, Lawrence P. Shopping Centers: the new building type. Progressive Architecture, v. 33, n. 6, June 1952, p. 65-109.

GRUEN, Victor. The Heart of Our Cities: The Urban Crisis: Diagnosis and Cure. New York: Simon and Schuster, 1964a.

GRUEN, Victor. Arquitetura e desenvolvimento urbano. In: Panorama da arquitetura. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964b.

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