Três sambas para o Dia do Consciência Negra

 

No dia 20 de novembro, aniversário da morte de Zumbi, é comemorado o Dia da Consciência Negra. Como eu não escrevia nada sobre samba há algum tempo, decidi selecionar três sambas que falam os negros.

É bom deixar claro que a ideia não foi escolher as músicas cujas letras façam a melhor análise da situação dos negros no Brasil, até porque eu não sou negro e não entendo muito do tema. O critério de escolha dos sambas foi musical, peguei , dentre aqueles que falam do tema, os que eu mais gosto da melodia e da harmonia.

Preconceito (Wilson Baptista / Marino Pinto)

Eu conheci o Wilson Baptista pela polêmica que ele se envolveu com o Noel Rosa. Só depois de alguns anos descobri a riqueza da obra dele e virei fã. Depois dos sambas sobre o Cabo Laurindo (sobre os quais eu pretendo escrever em breve), o samba que eu mais escuto do Wilson é Preconceito, uma parceria com o Marino Pinto:

Eu nasci num clima quente
Você diz a toda gente
Que eu sou moreno demais
Não maltrate o seu pretinho
Que lhe faz tanto carinho
E no fundo é um bom rapaz

Você vem de um palacete
Eu nasci num barracão
Sapo namorando a lua
Numa noite de verão
Eu vou fazer serenata
Eu vou matar minha dor
Meu samba vai, diz a ela
Que o coração não tem cor

Vale a pena ouvir também a versão do João Gilberto, no festival de Montreux de 1985, e a gravação do Paulinho da Viola  ocom Caetano Veloso e o Chico Buarque. Ou ainda a do Roberto Ribeiro, que também é boa, embora não tanto quanto as anteriores.

Dia de Graça (Candeia)

Não podia deixar de fora desse post o mestre Candeia, um dos maiores compositores da história do samba. Afinal, foi ele que deu nome ao blog. E minha paixão com ele começou justamente com essa música.

Ouvi ela pela primeira vez em uma roda de samba e adorei o diálogo entre a primeira voz e o coro, na primeira parte do samba. É bem diferente da maioria dos coros que só repetem a última palavra do verso, ou que a cada verso repetem a mesma frase. Já na segunda parte, o samba muda para tom menor e ganha uma cara bem diferente. No lugar do ar de exaltação da primeira, a segunda parte ganha um tom de lamento que acompanha a mudança na letra. Mas do que fala essa letra?

Nas primeiras vezes que eu ouvi, não prestei muita atenção. Como eu costumo fazer, minha atenção focou mais na forma do samba. Depois que fui prestar atenção no conteúdo. Candeia começa falando do esplendor Carnaval e dos preparativos do desfile. Se emociona falando que “aquela gente de cor” vai pisar na passarela “com a imponência de um rei”. O Carnaval é o momento onde se dá “coração, alegria e amor a todos sem distinção de cor”.

E essa é realmente a sensação que temos quando chegamos no Carnaval do Rio (atualmente só no Carnaval de rua, já que a Sapucaí já virou algo bem diferente). É verdade que muitos blocos são bem elitistas, mas durante o Carnaval se encontram ambientes em que homens e mulheres, brancos e negros, pobre e ricos, jovens e velhos dançam e cantam juntos sem preconceitos. Até parece que vivemos numa democracia social e racial.

Mas uma hora chega a quarta-feira de cinzas… e percebemos que tudo não passava de uma ilusão. Ao contrário do branco, o negro “volta ao humilde barracão” e percebe que não é tão aceito pela sociedade como pareceu por cinco dias. Candeia diz que não quer ser considerado rei só durante o Carnaval, que o negro deveria ser considerado rei o ano todo. Mas isso só vai acontecer quando o filho do negro puder fazer samba dentro a universidade. “Aí então jamais tu voltarás ao barracão”. Acho inclusive que essa música daria um bom hino para o movimento a favor das cotas na universidade.

A Teresa Cristina, de quem também sou fã, contou na edição do Samba da Gamboa em homenagem a Candeia, que foram os sambas dele que fizeram ela se aceitar como negra, principalmente Dia de Graça.

Também não podia deixar de citar que pouco antes de morrer, o Candeia saiu da Portela e fundou do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo.

 

Hoje é manhã de carnaval (ao esplendor)
As escolas vão desfilar (garbosamente)
Aquela gente de cor com a imponência de um rei
Vai pisar na passarela (salve a Portela)
Vamos esquecer os desenganos (que passamos)
Viver alegria que sonhamos (durante o ano)
Damos o nosso coração, alegria e amor
A todos sem distinção de cor
Mas depois da ilusão, coitado
Negro volta ao humilde barracão

Negro acorda é hora de acordar
Não negue a raça
Torne toda manhã dia de graça
Negro não se humilhe nem humilhe a ninguém
Todas as raças já foram escravas também
E deixa de ser rei só na folia
E faça da sua Maria uma rainha todos os dias
E cante o samba na universidade
E verás que seu filho será príncipe de verdade
Aí então jamais tu voltarás ao barracão

Apesar de a melhor (e mais conhecida) gravação ser essa aí de cima, Dia de graça já tinha sido gravada em um disco anterior. O samba também já foi gravado por Elza Soares, Alcione e pelo Martinho da Vila. E para finalizar, Paulinho da viola, Monarco, Cristina Buarque, Martinho da vila e Teresa Cristina cantando no Circo Voador esse ano, na comemoração dos 80 anos do Candeia.

Mestre-Sala dos Mares (João Bosco e Aldir Blanc)

Quando eu ouvi essa música, fiquei na dúvida se o “navegante negro” do qual ela falava era uma referência ao João Cândido, marinheiro negro que liderou a Revolta da Chibata e ficou conhecido como Almirante Negro. Fui pesquisar e descobri que não só era uma referência, como ele era citado explicitamente na letra original:

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O Dragão do Mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como Almirante Negro
Tinha dignidade de um mestre-sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava: Não!

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o Almirante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas a música foi feita durante a ditadura e, na hora de passar pela censura, obviamente os militares não gostaram da referência. Na versão que foi gravada, quase todas as referências à Marinha foram mudadas. “Marinheiro” virou “feiticeiro”, “almirante negro” virou “navegante negro”, “bloco de fragatas” virou “alegria das regatas”, a “tripulação” virou “pessoal do porão” e, no lugar das “rubras cascatas que jorravam das costas dos negros pelas pontas das chibatas” vieram as cascatas que jorravam “das costas dos santos entre cantos e chibatas”. Outra alteração sutil, mas que faz toda a diferença, foi o “gritavam então” no lugar do “gritavam não”, que muda o eu lírico da última parte do samba.

Segundo Aldir Blanc, não foi fácil passar pela censura:

Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (…) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o “bonzinho”, disse mais ou menos o seguinte:
– Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…
Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um “telefone” nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:
– O problema é essa história de negro, negro, negro…

Pelo jeito não adiantava tirar apenas as referências à Marinha, era preciso tirar também as referências aos negros. Mas os “batalhões de mulatas” puderam continuar na música. Afinal, não podia falar das lutas dos negros mas falar das mulheres negras de forma sexualizada tava liberado pela ditadura.

Há muito tempo nas águas da guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glórias a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais.

 

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