Guy Debord sobre a tradução

Um dguy_debordos livros que eu li nessas minhas férias (que, infelizmente, acabaram ontem) foi A sociedade do espetáculo, do Guy Debord. É uma leitura que eu já devia ter feito há muito tempo, mas sempre acabava adiando.

Não pretendo aqui fazer comentários sobre o livro (coisa que muita gente mais qualificada que eu já fez), apenas compartilhar o início do prefácio que o Guy Debord escreveu em 1979 para a 4ª edição italiana do livro.  Nesse trecho ele comenta a péssima qualidade da maioria das traduções feitas até então para A sociedade do espetáculo, dizendo que isso é um problema geral das traduções feitas por editoras comerciais:

Várias traduções deste livro, publicado em Paris nos finais de 1967, apareceram já numa dezena de países; mais frequentemente diversas foram produzidas na mesma língua, por editores em concorrência; e são quase sempre más. As primeiras traduções foram por todo o lado infiéis e incorretas, à exceção de Portugal e, talvez, da Dinamarca. As traduções publicadas em holandês e em alemão são boas a partir das segundas tentativas, ainda que o editor alemão desta vez tenha negligenciado corrigir na impressão uma multidão de gralhas. Em inglês e em espanhol é preciso esperar pelas terceiras para se saber o que escrevi. Contudo não se viu nada pior que em Itália onde, desde 1968, o editor De Donato pôs em circulação a mais monstruosa de todas; a qual só foi parcialmente melhorada pelas duas traduções rivais que se seguiram. Aliás, nessa altura, Paolo Salvadori, indo encontrar os responsáveis por este exagero nos seus escritórios, foi-lhes às trombas, tendo-lhes cuspido, literalmente, na cara: pois esta é a maneira natural de agir dos bons tradutores, quando se deparam com os maus. Basta dizer que a quarta tradução italiana, feita por Salvadori, é finalmente excelente.

Esta extrema carência de tantas traduções que, à exceção das quatro ou cinco melhores, não me foram submetidas, não quer dizer que este livro seja mais difícil de compreender que qualquer outro que tenha alguma vez realmente merecido ser escrito. Este tratamento não é só particularmente reservado às obras subversivas, porque neste caso os falsificadores pelo menos não têm a recear ser citados pelo autor perante os tribunais; ou porque a inépcia acrescentada ao texto favorecerá muito pouco as veleidades de refutação pelos ideólogos burgueses ou burocráticos. Não podemos esquecer-nos de constatar que a grande maioria das traduções publicadas nos últimos anos, seja em que país for, e mesmo quando se trata de clássicos, são tratadas da mesma maneira. O trabalho intelectual assalariado tende normalmente a seguir a lei da produção industrial da decadência, onde o lucro do empresário depende da rapidez da execução e da má qualidade do material utilizado. Esta produção, tão arrogantemente libertada de toda a aparência de atenção pelo gosto do público, desde que, concentrada financeiramente e, portanto, melhor equipada tecnologicamente, detém em monopólio, em todo o espaço do mercado, a presença não qualitativa da oferta, pôde especular com uma audácia crescente sobre a submissão forçada da procura, e sobre a perda do gosto que dela é momentaneamente a consequência na massa da sua clientela. Quer se trate de uma casa, da carne de vaca, ou do fruto do espírito ignorante dum tradutor, a consideração que se impõe soberanamente é que, de ora avante, se pode obter mais depressa a menor custo aquilo que antes exigia bastante tempo de trabalho qualificado. É bem verdade, de resto, que os tradutores têm poucas razões para preocupar-se sobre o sentido de um livro, e sobretudo em aprender primeiramente a língua em questão, quando quase todos os autores atuais escreveram, eles próprios, com uma pressa tão manifesta, livros que vão passar de moda num tempo tão breve. Porquê traduzir bem aquilo que já era inútil escrever, e que não será lido? É por este lado da sua harmonia especial que o sistema espetacular é perfeito; ele desmorona-se por outros lados.

Os grifos na citação foram incluídos por mim. E essa tradução do prefácio eu achei na internet, não foi a mesma que eu li.

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