Como eles agem? A ABIN repetindo 74

Um vez, lendo jornais e panfletos do DAECA da década de 70, achei uma referência a uma notícia que havia saído na Revista Veja em fevereiro de 1974. Tempos depois, quando eu era bolsista de iniciação científica, precisei ler várias revistas daquela época para uma pesquisa sobre o II PND e me deparei com a tal notícia. A Veja estava denunciando os comunistas por dominarem as universidades e subverterem a juventude:

Apesar das fantásticas estatísticas divulgadas pelo ministro Antônio Delfim Netto, o país está à beira do caos e da destruição. O comunismo não dorme, ataca em todas as frentes, mesmo as que por acaso estejam mais à retaguarda, e aproxima-se da vitória, pois nem mesmo o Funrural, o PIS, o Proterra e a reforma do ensino, pilares de impacto sobre os quais o governo pretende construir uma sociedade justa, feliz, ocidental, cristã e familiar, resistem às suas indisiosas investidas.

Nas universidades, os estudantes gastam o tempo longe dos livros e das apostilas, em orgias indescritíveis em que ao despudor do amor livre, em grupo e de portas abertas, soma-se a destruição moral e física dos tóxicos consumidos em todos os estados: sólido, líquido e gasoso. É o resultado evidente das recomendações de Fidel Castro…

Eles denunciam as letras das músicas do Chico Buarque, dos Novos Baianos e sobra até para a imprensa. Denunciam o “imperialismo” da concorrência, em uma referência ao Estadão, que, ao ser censurado, havia colocado um poema do Camões no lugar da notícia proibida:

A imprensa faz a sua parte inventando, distorcendo e na maioria das vezes escondendo notícias. Nos tempos mais recentes, aliás, há jornais capazes de revelar indisfarável preferência pelos versos de Camões, conhecido cantor dos sonhos imperialistas e conquistadores de um país estrangeiro.

Como eles agem.png

Mas nem tudo estava perdido. O Ministério da Educação estava reagindo e havia criado uma cartilha chamada “Como eles agem”, para ajudar a identificar que eram os terroristas infiltrados nas universidades.

Felizmente o Ministério da Educação decidiu das um basta nessa investida subversiva, Num gesto de nunca suficiente louvada e reconhecida coragem, o MEC publicou o opúsculo “Como eles agem”, preparado por sua divisão de Segurança e Informações, para denunciar todos os ardis dos inimigos da pátria. Alertada, a família brasileira pode esperar agora que o novo governo saiba neutralizá-los em todas suas manifestações.

Mais de quarenta anos se passaram e muita coisa mudou. Infelizmente, as mudanças não foram tão grandes quanto a gente esperava. Não só a repressão aos “subversivos” continua quanto o termo “terrorista” continua sendo usado contra aqueles que se mobilizam contra o poder. Recentemente foi aprovada a “Lei do Terrorismo”, proposta pelos Ministérios da Justiça e da Fazenda (isso mesmo, do Ministério da Fazenda!) ainda no governo Dilma, com o objetivo de criminalizar os movimentos sociais. O projeto, pelo menos num primeiro momento, teve apoio dos parlamentares governistas, preocupados com os protestos contra a Copa.

Agora, com a lei aprovado, cabe ao governo Temer colocá-la em prática. E uma das primeiras medidas está sendo uma campanha da ABIN no melhor estilo “como eles agem”, das cartilhas dos anos 70. A ABIN está divulgando nas redes sociais dicas de como identificar terroristas:

ABIN.jpg

É uma das campanhas mais toscas que eu já vi. Vão começar a prender pessoas por andarem com roupas “estranhas”? E o que seria uma roupa “destoante do clima”? Usar terno e gravata em um país tropical deve se enquadrar nesse quesito. Acho que vou comprar um rifle e atirar em todo engravatado que eu ver por aí no verão. Vai ser minha contribuição à segurança da pátria.

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2 thoughts on “Como eles agem? A ABIN repetindo 74

  1. Puxa vida! Colocar na mesma sacola uma campanha contra o terrorismo em um período de olimpíadas com uma campanha anticomunista da década de 70?

    O autor deve ser daqueles que não aceita autoridade, que olha para o policial e lembra do que leu e ouviu sobre a ditadura militar no Brasil, transbordando o asco que tem das campanhas antissocialistas, assim como lembrou dos textos do DAECA quando viu o cartaz da ABIN. Hehehe… Vale lembra que, apesar de no caso brasileiro (e outros: Chile etc) ter sido diferente, mundialmente os casos de repressão ocorrem mais em movimentos socialistas que antissocialistas, dificilmente dissociados de ditadores. Então seja mais racional e deixe as paixões de lado quando for interpretar o mundo, senão vai acabar escrevendo besteiras como estas. Olha para uma reportagem opinativa da Globo ou da Veja e enxerga uma afronta pois ela deveria ser isenta, mas defende e replica os artigos da Carta Capital. Olha para um policial e enxerga um inimigo, pois lembra dos tempos de opressão. Olha para um padeiro madrugador, dono de padaria, e enxerga um capitalista, tomador de mais-valia dos funcionários. Olha para uma campanha antiterror e enxerga um movimento de opressão. Indico um tratamento psicológico…

    Meu caro pseudo-intelectual, grande conhecedor de segurança pública e de táticas antiterror, identificar padrões de comportamento e de aparência é uma característica não apenas dos humanos, mas de muitos animais. Como identificas um cachorro raivoso e um manso? Como distingue uma mulher de um homem? Que critérios “você” utiliza para classificar de suspeito o indivíduo do qual você se afasta na rua com medo de ser assaltado? Ou que recomenda para seu filho ou esposa? (…se não faz é porque não foi assaltado ainda) “Você” utiliza padrões subjetivos.

    O cartaz que citastes aponta estes padrões, identificados objetivamente por uma rede de segurança que compartilha informações internacionalmente. E o que você enxerga? Uma afronta à sua paixão! Um movimento opressor! Um movimento antissocialista! O texto do cartaz é simples e objetiva o público em geral; não revela tecnicamente estes padrões, necessários para grandes intelectuais e experts.

    Vai com calma, amigo! Mais racionalidade…

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