Não foi a direita que cresceu, foi a esquerda que perdeu votos

Muita gente (incluindo eu) está lamentando o segundo turno entre PMDB e PSDB em Porto Alegre. No meu Facebook não param de surgir pessoas reclamando que a onda conservadora que atinge todo país estaria se manifestando também na cidade que criou o Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial. Alguns apontam o início dessa “onda” em junho de 2013, outros no movimento pelo impeachment, mas parece ser quase consenso que o resultado eleitoral é um resultado desse crescimento do conservadorismo.

Embora isso tenha um pouco de verdade, precisamos analisar o que tá acontecendo com um pouco mais de calma. Para começar, não dá para usar as eleições como indicador absoluto da força da esquerda e da direita no país, já que há vários grupos políticos que nem disputam a eleição. Além disso, o número de votos não reflete automaticamente a consciência política dos eleitores. O financiamento da campanha e o tempo de TV podem em alguns casos influenciar mais no número de votos de um candidato do que a sua posição ideológica. E isso ficou ainda pior com a reforma política articulada pelo Eduardo Cunha e sancionada pela Dilma ano passado.

Ou seja, o crescimento dos votos nos partidos de direita pode ser um péssimo sinal, mas não é a prova definitiva de que a população está mais conservadora. O que eu quero discutir, entretanto, nem isso. A questão é que os votos dos partidos de direita não aumentaram! É só olhar para as últimas quatro eleições de Porto Alegre.

O resultado do primeiro turno nas eleições municipais desde 2004 foi o seguinte:

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Marquei em vermelho os partidos de esquerda e em azul os de direita. Fui bem flexível nessa classificação e incluí na esquerda as seguinte siglas: PT, PCdoB, PSOL, PSTU e PCO. Pode-se questionar (e eu, particularmente, questiono) se alguns desses partidos ainda são de esquerda, já que nos últimos anos se aliaram com a direita e atacaram os direitos dos trabalhadores em mais de uma oportunidade. Mas o objetivo aqui é tentar medir o tamanho da tal “onda conservadora” e me parece que quem é realmente conservador não votou em nenhum desses partidos aqui em Porto Alegre.

O que se vê é uma certa estabilidade nos votos da direita. Em 2004 eles tiveram o apoio de 49,3% dos eleitores. Em 2012 houve um pequeno crescimento (50,3%) e em 2016 até caíram um pouco: 46,4%. Portanto, os votos da direita não estão crescendo na cidade. O problema foi o desempenho eleitoral da esquerda, que em 2004 tinha 31,0% e em 2012 caiu para 23,4%. Em 2016 os partidos de esquerda perderam ainda mais votos, ficando com o apoio de apenas 18,8% dos eleitores porto-alegrenses. Não foi a direita que cresceu, foi a esquerda que diminuiu!

A direita continua estável há 12 anos, com cerca de metade dos eleitores. A única exceção foi 2008, quando fizeram menos de 40% e a esquerda quase empatou. Isso se deve, em parte, à alta aprovação do Governo Federal naquele período, o que fortaleceu as candidatas do PT e do PCdoB. Mas também não dá para esquecer que 2008 foi o ano das alianças mais esdrúxulas que a cidade viu nos últimos tempos. O PT se aliou com PRB, PSL e PTC. A Manuela (PCdoB) tinha como vice o Berfran Rosado (PPS), velho nome da direita privatista gaúcha, e contava ainda com o apoio do PR, PTdoB, PMN, PSB e PTN. Até o PSOL decidiu entrar na moda das alianças e colocou de vice da Luciana o Edison Pereira de Souza (PV), que na eleição anterior havia sido candidato a vice do Jair Soares (PP).

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Mas se de 2004 a 2016 a direita permaneceu estável e a esquerda diminuiu consideravelmente, para onde foram esses votos? Para brancos, nulos e abstenção. Somando essas três categorias, chegamos a um total de 34,8% dos eleitores em 2016. Mais de um terço dos porto-alegrenses não votou em nenhum candidato a prefeito! Em 2004, esse número era de “apenas” 19,6%, o que mostra que realmente houve um crescimento expressivo do “voto em ninguém”, o que não é exclusividade gaúcha. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belém, Belo Horizonte e em outras capitais quem ganhou em 2016 também foi a soma de brancos, nulos e abstenções.

sonhos-urnasNão dá para saber a trajetória de voto de cada eleitor, mas, pelo menos de forma agregada, o que aconteceu foi que os eleitores da direita se mantiveram e os da esquerda desistiram de votar. Alguns viram que eleição não muda muita coisa e decidiram tentar outras formas de atuação política, o que não é um grande problema. Outros, no entanto, parecem ter desistido da política e isso é mais preocupante. E aqui temos que admitir que a principal culpada foi a própria esquerda, que cometeu inúmeros erros. Não que as entidades patronais, a mídia, setores do judiciário e tantos outros atores da direita não tenham ajudado. Mas tentar acabar com a esquerda eles sempre tentaram e vão continuar tentando. A gente é que não pode dar chance deles fazerem isso.

Voltandobolsonaro ao assunto inicial – a tal “onde conservadora” -, acho que não é uma análise completamente errada. Embora o número de eleitores da direita tenha permanecido mais ou menos o mesmo, a distribuição dos votos dentro da direita piorou. Conservadores e neoliberais moderados deram lugar a Bolsonaros, Partido Novo e outras manifestações mais radicais da direita. Sem falar de outros sinais do crescimento da extrema direita para além do voto.

Vivemos uma das maiores crises econômicas da história no Brasil e no resto do mundo e em períodos de crise é normal que as posições políticas se radicalizem. Não dá para esquecer que na última grande crise do capitalismo surgiu o fascismo. A diferença é que naquela época a esquerda também radicalizou. Em vários países houve um crescimento dos partidos comunistas.

Na crise atual, só a direita que está seguindo esse caminho. A radicalização da esquerda, que costumava acontecer em crises anteriores, não ocorreu. O PT, que já foi o maior partido de esquerda do país, foi fazendo inúmeras concessões até 2014 e, quando a crise chegou forte, decidiu se jogar de vez para a direita. No pouco tempo que durou, o segundo governo Dilma fez um forte ajuste fiscal, aprovou a lei do terrorismo, retirou direitos dos trabalhadores, ensaiou uma reforma da previdência… Resumindo, fez tudo aquilo que tinha acusado o PSDB de querer fazer. Era óbvio que esse estelionato eleitoral faria o PT perder votos nas eleições seguintes e foi o que aconteceu.

O PSOL poderia ter herdado uma parte desses votos, mas a estratégia deles (pelo menos aqui em Porto Alegre) foi fugir de qualquer proposta mais à esquerda. A Luciana passou quase toda a campanha repetindo o discurso moralista das “mãos limpas” e flertando com propostas neoliberais, com o apoio à terceirização e às parcerias público-privadas. Sem falar da vergonhosa aliança com o PPL.

Está na hora da esquerda repensar tudo o que fez nos últimos anos e não ter medo de defender um programa que seja realmente de esquerda. Quem sabe assim não conquistamos o apoio desse um terço da população que hoje não está votando em ninguém. E não estou falando em apoio eleitoral para 2018, mas em apoio para as lutas que precisam ser feitas todos os dias. O governo Temer não está para brincadeira e, se não fizermos nada, os trabalhadores perderão em breve os seus poucos direitos.