Ingressos de cinema ficam mais caros depois da lei que restringe a meia-entrada

Há pouco mais de um mês, o Pablo Ortellado escreveu sobre a lei da meia-entrada na sua coluna da Folha. Ele criticou que a promessa de redução do preço dos ingressos não se concretizou após a aprovação da lei. Baseado nos cinemas de São Paulo que aparecem no Guia da Folha, o Pablo mostrou que, um ano após a regulamentação da lei, os ingressos haviam aumentado 5,3%, pouco abaixo do IPC-M, que havia sido de 7,7%.

Até aí, nenhuma novidade. Toda vez que se aprova algum benefício para as empresas no Brasil, tentam nos convencer que na verdade é uma vantagem para o consumidor, o que quase nunca acontece. No início do ano, quando a ANAC autorizou as companhias aéreas a cobrarem pela bagagem despachada, por exemplo, foi prometido que isso reduziria o preço das passagens. Poucos dias após a mudança, as empresas já tinham mudado o discurso.

Em relação à meia-entrada, a diferença foi que as próprias entidades estudantis, que deveriam ser as maiores defensoras da meia-entrada, estavam a favor da sua restrição. Em troca do monopólio na confecção das carteirinhas, as três maiores entidades estudantis do país, UNE, UBES e ANPG (todas controladas pelo PCdoB), fizeram um acordo com os exibidores e produtores culturais e com o governo para limitar em 40% o número de meias. As três entidades reforçaram o discurso de queda no preço do ingresso. Na época a presidente da UBES, Manuela Braga, disse:

Os ingressos dos espetáculos devem diminuir 30%, vamos pagar pelo preço justo, e o estudante terá meia-entrada de fato, não de mentira. Acreditamos que a cultura tem de fazer parte da formação educacional do estudante, já que o Brasil é um país multicultural.

A presidente da ANPG, Luana Bonone, defendia o mesmo:

Tenho a convicção de que na prática o ingresso dobrava porque a meia-entrada era generalizada. Agora com a regulamentação é possível a redução.

O que aconteceu foi o contrário. A já citada coluna do Pablo Ortellado tinha dado como exemplo o ingresso de algumas salas de cinema de São Paulo, o que não mostra necessariamente a realidade de todos o país. Para ter uma ideia mais abrangente, peguei os dados do IPCA. No gráfico abaixo tem a evolução do preço médio do ingresso de cinema no Brasil, já descontada a inflação:

meia entrada

Quando a lei da meia-entrada foi regulamentada e passou a valer, em dezembro de 2015, o preço dos ingressos não só não caiu como passou a aumentar, mudando a tendência observada até então.

Até agora não vi nenhuma auto-crítica dos defensores da lei e isso não me surpreende. Afinal, reduzir o valor do ingresso nunca foi o real motivo da lei.

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